Crise da masculinidade: explosão do uso de testosterona entre homens gera alerta mundial sobre riscos
Médico defende cautela, avaliação individualizada e diz como crescimento acelerado da reposição hormonal impulsionado por redes sociais e influenciadores preocupa especialistas
O crescimento do uso da terapia de reposição de testosterona (TRT) entre homens de diferentes faixas etárias tem provocado um intenso debate internacional sobre saúde masculina, envelhecimento, estética e masculinidade. A discussão ganhou força após autoridades ligadas ao governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, defenderem publicamente o uso ampliado da testosterona como ferramenta de bem-estar, desempenho físico e qualidade de vida.
Uma reportagem publicada pelo The New York Times mostrou, inclusive, que o número de prescrições de testosterona saltou de menos de 1 milhão em 2000 para quase 12 milhões em 2025 nos Estados Unidos, impulsionado principalmente por clínicas online e influenciadores digitais que promovem o hormônio como símbolo de vitalidade masculina.
Para o médico nutrólogo e intensivista Dr. José Israel Sanchez Robles, o fenômeno exige atenção e responsabilidade médica. “A testosterona possui indicações clínicas bem estabelecidas. Pode trazer benefícios importantes quando há deficiência hormonal devidamente comprovada, mas não deve ser utilizada como recurso indiscriminado para rejuvenescimento ou melhora de desempenho”, afirma.
Segundo o especialista, muitos homens procuram o uso de testosterona influenciados por padrões estéticos e comportamentais amplamente disseminados nas redes sociais. “Existe atualmente uma pressão significativa relacionada à imagem corporal, desempenho e aparência física masculina. Isso faz com que muitos homens busquem terapia hormonal mesmo sem indicação médica formal”, explica Dr. José Israel.
A publicação americana aponta que influenciadores ligados ao universo fitness e ao chamado “manosphere” passaram a associar baixos níveis de testosterona à fraqueza, baixa autoestima e até fracasso social. O cenário preocupa especialistas porque parte dos usuários recorre a produtos adquiridos sem supervisão médica, inclusive em laboratórios clandestinos.
“O uso indiscriminado de testosterona pode estar associado a efeitos adversos relevantes, incluindo infertilidade, alterações cardiovasculares, elevação da pressão arterial e disfunções metabólicas”, alerta o médico. “Quando o organismo recebe testosterona exógena, ocorre supressão da produção hormonal natural, o que pode comprometer inclusive a produção de espermatozoides.”
A discussão também se tornou popular porque muitos homens relatam melhora na disposição, libido, massa muscular e humor após iniciar a terapia hormonal. Estudos recentes têm mostrado que pacientes com deficiência hormonal diagnosticada podem, de fato, se beneficiar do tratamento quando acompanhados corretamente.
Ainda assim, Dr. José Israel reforça que cada caso deve ser avaliado de forma individualizada. “O diagnóstico não deve se basear exclusivamente em exames laboratoriais. É fundamental considerar sintomas clínicos, histórico médico, hábitos de vida e a avaliação global do paciente”, ressalta.
O especialista também destaca fatores associados à redução dos níveis de testosterona, como obesidade, sedentarismo, estresse crônico e privação de sono. “Em muitos casos, intervenções relacionadas ao estilo de vida podem promover melhora significativa dos níveis hormonais, sem necessidade de reposição”, pontua.
Dr. José Israel ressalta que a ampliação do debate sobre saúde hormonal masculina pode ter impacto positivo ao estimular maior cuidado com a própria saúde. No entanto, faz um alerta: “A saúde masculina não deve ser reduzida exclusivamente à estética corporal ou desempenho sexual. O equilíbrio físico, metabólico e emocional permanece como um dos pilares mais importantes da saúde global.”
