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Mães que empreendem: biomédica transforma R$ 1.100 em clínica e revela desafios de empreender

Dra. Vânia de Paula conciliou maternidade e carreira, deixou o serviço público e construiu do zero uma clínica de estética que hoje emprega 8 profissionais e projeta crescimento de até 50% em 2026

A maternidade foi o ponto de virada na vida da biomédica especialista em estética Vânia de Paula — tanto pessoal quanto profissional. Foi após o nascimento da primeira filha que ela tomou a decisão de deixar parte da estabilidade do serviço público para buscar mais tempo com a criança.

Poucos meses depois, no entanto, recebeu um convite para assumir um cargo de gestão e voltou ao trabalho quando a filha tinha apenas oito meses. “Ser mãe muda nossa visão de tudo na vida. A gente passa a pensar no que realmente tem valor”, relembra.

A trajetória, no entanto, não seguiu um caminho linear. Entre a maternidade e a carreira, Vânia construiu também sua identidade como empreendedora — começando literalmente do zero.

Do R$ 1.100 ao primeiro negócio

Formada no ano 2000, a empresária iniciou sua trajetória profissional em uma clínica de estética voltada à cirurgia plástica, onde atuou por cinco anos. Em seguida, foi aprovada em um concurso público, passando posteriormente a ocupar um cargo de gestão, função na qual permaneceu por 12 anos. Durante esse período, acumulou experiência em liderança e rotina administrativa, mas sentia falta de maior realização profissional.

A mudança de trajetória aconteceu após uma viagem a São Paulo. “Foi a primeira vez que fui a São Paulo e vi um quiosque de fast sobrancelhas, sem necessidade de agendamento. Eu me apaixonei por aquele modelo de negócio”, conta.

Como sempre teve a certeza de que não queria trabalhar com franquias, decidiu criar um modelo próprio. Ao retornar, começou a buscar um espaço para abrir uma sala de depilação e design de sobrancelhas com atendimento sem hora marcada. Assim nasceu a Dpila.

O primeiro passo no empreendedorismo veio com um investimento de apenas R$ 1.100 emprestados pelo pai, somados ao apoio inicial do marido. “Meu esposo me deu os três primeiros meses de energia e água. Eu fiquei sem pagar aluguel no início. Com esse valor, comprei móveis usados, montei a estrutura com divisórias simples e até cortina feita pela minha mãe”, relembrou.

Foi assim que nasceu o primeiro espaço de estética, com atendimento simples, sem hora marcada e foco em sobrancelhas e depilação. O início foi modesto: no primeiro mês, o faturamento foi de cerca de R$ 500. Ainda assim, o modelo começou a se sustentar rapidamente. Em cerca de seis, o negócio já conseguia pagar as próprias despesas. “Eu já sabia da importância do marketing digital. Começamos com Google Meu Negócio e Instagram desde o início”, explicou.

Pouco tempo depois, o setor passou por uma mudança importante: a autorização para realização de procedimentos minimamente invasivos por biomédicos. “Nesse período, iniciei minha pós-graduação em Estética Avançada”, relata.

Com o tempo, o pequeno espaço evoluiu para a clínica VP Saúde Estética, que hoje emprega oito profissionais e realiza cerca de 130 atendimentos mensais. Durante a pandemia, o setor de estética passou por forte expansão no ambiente digital, impulsionado por lives e redes sociais. Vânia relata que o faturamento da clínica chegou a triplicar no período.

Atualmente, o negócio registra crescimento contínuo: no último ano, o faturamento avançou cerca de 30%, e a projeção para 2026 é de expansão entre 40% e 50%, segundo a própria gestora.

Maternidade e gestão: escolhas e equilíbrio

Para Vânia, a maternidade foi também uma escola de gestão. “Você aprende a dar mais valor ao tempo. Eu nunca parei de trabalhar, mas em alguns períodos escolhi ficar meio período em casa. O mais importante não é a quantidade de tempo, mas a qualidade”, explica.

Ela reforça que o desafio de conciliar carreira e filhos exige prioridade e consciência: “Conciliar maternidade e carreira é sempre um desafio. A primeira questão é o tempo, e a segunda é saber priorizar.”

Para ela, a maternidade e o empreendedorismo se encontram no mesmo ponto: construção. “O maior presente da maternidade é ver um filho sendo formado. E o mais bonito do empreendedorismo é ver um negócio nascer do zero e crescer também como um filho.”

Além do crescimento pessoal, a empresária destaca a evolução financeira como parte essencial da jornada empreendedora. Ela afirma que um dos maiores aprendizados foi separar vida pessoal e empresa. “No começo, a gente não tem maturidade financeira. Mistura tudo. Mas você precisa entender que CNPJ não é CPF. Se o negócio não cresce, alguém cresce no seu lugar.”

A biomédica também chama atenção para a competitividade do setor da estética no Brasil, um dos que mais crescem no país, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), que aponta o Brasil entre os maiores mercados de estética do mundo.

Para ela, o crescimento acelerado também traz desafios: “A estética é extremamente promissora, mas muito pulverizada. É preciso focar no básico bem feito e na qualificação profissional.”

Empreendedorismo feminino e liderança

Vânia também destaca a presença feminina no setor de negócios como um diferencial competitivo. “A mulher tem uma visão mais ampla, mais humana e mais sensível na gestão. Mas também precisa equilibrar isso com decisões racionais, baseadas em números.”

Hoje, além de empresária, atua como mentora de alunos e defende uma visão mais consciente do empreendedorismo. “Empreender não é para todos. É preciso disciplina diária. Você acorda todos os dias sem saber o resultado, mas precisa seguir construindo”, finaliza.

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