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Estudo aponta possível risco ocular associado à “canetas emagrecedoras”; entenda


Análise com mais de 30 milhões de registros identifica ligação com neuropatia óptica isquêmica e levanta preocupação sobre dose e formulação do medicamento

Um estudo internacional baseado em mais de 30 milhões de relatos do sistema de farmacovigilância dos Estados Unidos (FDA), órgão semelhante à Anvisa, identificou uma possível associação entre o uso de semaglutida — medicamento amplamente utilizado no tratamento do diabetes e da obesidade — e casos de neuropatia óptica isquêmica (ION), uma condição rara que pode levar à perda permanente da visão.

A pesquisa analisou dados entre 2017 e 2024 e apontou que, entre as formulações disponíveis, o Wegovy apresentou o sinal mais forte de associação com a condição, seguido pelo Ozempic. A diferença, segundo os pesquisadores, pode estar relacionada à dose mais elevada utilizada no tratamento da obesidade, o que aumenta a exposição do organismo ao medicamento.

Para o médico nutrólogo e intensivista Dr. José Israel Sanchez Robles, os dados ainda não estabelecem uma relação definitiva de causa e efeito, mas exigem atenção. “Estamos diante de um sinal relevante, que, no entanto, ainda necessita de confirmação por meio de estudos com maior robustez metodológica. Até o momento, os achados disponíveis configuram uma associação estatística, não sendo possível estabelecer uma relação causal direta”, explica.

A neuropatia óptica isquêmica ocorre quando há redução do fluxo sanguíneo para o nervo óptico, podendo resultar em perda visual súbita. Em alguns casos, a condição pode evoluir para cegueira completa. O estudo também identificou maior probabilidade de ocorrência em homens, além de sugerir que o risco pode estar relacionado à dose do medicamento.

Segundo o especialista, há hipóteses fisiológicas que ajudam a entender o fenômeno. “Doses mais elevadas de semaglutida podem estar associadas a alterações hemodinâmicas, incluindo redução da pressão arterial e diminuição do volume intravascular, o que, em termos teóricos, poderia comprometer a perfusão do nervo óptico”, afirma José Israel.

Apesar do alerta, o médico reforça que os benefícios da medicação continuam sendo relevantes, especialmente no controle metabólico. “Esses medicamentos representaram um avanço significativo no tratamento do diabetes mellitus e da obesidade; o ponto central, no momento, não é a interrupção de seu uso, mas sim a individualização da prescrição e o monitoramento mais rigoroso dos pacientes”, destaca.

Outro dado relevante do estudo é que a tirzepatida, medicamento mais recente com ação dupla, não apresentou associação significativa com a condição, o que pode indicar diferenças importantes no mecanismo de ação entre os fármacos.

Para José Israel, o momento exige cautela e acompanhamento clínico mais rigoroso. “Pacientes em uso dessas medicações devem ser orientados a buscar avaliação médica imediata diante de qualquer alteração visual, uma vez que a detecção precoce pode ser determinante”, alerta.

Diante das limitações dos dados — incluindo a ausência de informações clínicas completas e a impossibilidade de estimar a incidência real —, os pesquisadores ressaltam a necessidade de realização de estudos prospectivos para validação dos achados. Enquanto isso, o tema já mobiliza discussões entre profissionais de saúde e órgãos reguladores, especialmente em virtude do uso crescente dessas medicações em escala global.

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